quinta-feira, 15 de maio de 2014

Nayla

Era difícil enxergar através da fumaça densa que surgiu assim que as bombas alcançaram o solo, uma seguida da outra. O chão não parava de tremer, dificultando o avanço das tropas e a fuga das pessoas. Os diversos sons que escutava - disparos, explosões, choros e gritos - deixavam o ambiente ainda mais caótico.

Nayla desejava fechar os olhos e sair dali, mas foi impedida. Os horrores da guerra que observava dilaceravam seu coração. Ela queria ajudar, fazer alguma coisa para impedir o sofrimento das pessoas daquele lugar, contudo, seu próprio corpo tinha várias limitações.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Buraco

No início era apenas um buraco num canto escuro de um beco no qual  até mesmo os viciados e as prostitutas não gostavam de entrar. Quem tivesse a infelicidade de morar num dos prédios daquele bairro decadente e calhasse de ter uma janela voltada para o local, poderia até ter notado algo de estranho. Mas os únicos desafortunados nestas circunstâncias, pareciam ter inteligência o suficiente para não fazê-lo.

Foi assim que o buraco aumentou.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O Herdeiro

O Herdeiro

Minha mãe costumava dizer que eu tinha sangue azul. Obviamente acreditava que era apenas um eufemismo para o que ela achava dos meus modos e meu paladar excêntrico. 

Isso foi antes da invasão.

domingo, 6 de outubro de 2013

Zé da Mula

Zé da Mula desviou das carolas que saiam após a missa, seguindo na direção do padre que, ao vê-lo, balançou a cabeça em desalento e fechou com força as portas da igreja. Houve uma época que desviavam dele por causa do estado embriagado em que invariavelmente se encontrava, dormindo nos bancos da praça ou largado na sarjeta junto ao único botequim da cidade. Contudo, agora que Zé vivia sóbrio, ainda era uma pessoa indesejada.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

As Cores de Pedro

Ao meu filho querido. Que sua vida seja sempre colorida.



Pedro é um garoto esperto e inteligente.
Mas que, apesar de feliz, não vê a vida como toda gente.
Seu céu é cinza.
Seu mundo, sem cor.
Carro, roupa, casa...
E até uma pequena flor.
Mas Pedro não se importa e revela:
_ O que meu olho vê cinza, minha alma dá cor a ela.



Feliz aniversário!

sábado, 27 de julho de 2013

Doralice

Reginaldo agarrou-se ao balcão quando o mundo, de repente, começou a girar ao contrário. É claro que não foi tão de repente assim, ele sabia. Como sabia também que o efeito das inúmeras doses de cachaça que acabara de tomar somente iria passar no dia seguinte, depois de uma boa e dolorosa ressaca. Porém, como o garçom só estava esperando-o sair para fechar o bar, Reginaldo decidiu voltar para casa.  Não que ele quisesse, era penoso demais entrar naquele sobrado e não encontrar mais Doralice.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Casarão

Ela olhou para trás ao ouvir o solitário badalar do sino da igreja. Era a primeira noite da lua minguante e uma pálida luz vencia as nuvens que tentavam encobri-la. Com os pés descalços sobre as pedras frias e ásperas do rochedo, Suzana virou-se e contemplou a casa na qual vivera até então. Uma antiga sede de fazenda, toda em madeira nobre, com sua generosa varanda a circundar seus dois andares.