domingo, 6 de outubro de 2013

Zé da Mula

Zé da Mula desviou das carolas que saiam após a missa, seguindo na direção do padre que, ao vê-lo, balançou a cabeça em desalento e fechou com força as portas da igreja. Houve uma época que desviavam dele por causa do estado embriagado em que invariavelmente se encontrava, dormindo nos bancos da praça ou largado na sarjeta junto ao único botequim da cidade. Contudo, agora que Zé vivia sóbrio, ainda era uma pessoa indesejada.

Tudo começara quando, durante o temporal que alagara a cidade no último verão, Zé fora arrastado pelas águas e ficara preso nas pedras do rio. Todos pensaram que ele já tinha morrido quando, inesperadamente, o homem voltou a respirar. Desde então, Zé da Mula recebia avisos do Senhor, mas ninguém acreditava em suas palavras. Nem mesmo quando previra que toda a roça daquele ano iria virar pó e que, apesar da água do rio não acabar, a sede ia reinar naqueles campos. Veio os incêndios - cujas chamas levaram toda plantação - e a contaminação das águas pela fábrica da cidade vizinha - que tornou toda água da vila impossível de ser usada para qualquer coisa - e, mesmo assim, Zé da Mula continuou malquisto.

E agora, mais uma vez, riam dele e ignoravam os sinais. Zé da Mula achou que ao menos o padre, um homem de Deus, perceberia o que estava prestes a acontecer, mas não. Então, ele decidiu ir para frente da igreja e contar o que os anjos lhe avisaram, para quem quisesse ouvir. Bradou aos quatro ventos, gritou até cansar. O céu ia avermelhar e cair. As mulheres não prestaram atenção nem por um momento. O padre nem se deu ao trabalho de sair da sacristia. Os únicos que se aproximaram de Zé da Mula foram seus antigos companheiros de copo, mas esses vieram só para zombar. Riam de Zé e inventavam coisas, lembrando dos tempos que eram companheiros de copo.

Portanto, não houve alternativa para ele a não ser rezar e pedir ao Senhor que promovesse um milagre em vez da tragédia que se avizinhava. Com ar entristecido, distribuiu palavras de fé a quem quer que cruzasse seu caminho até o topo do morro do Cabungo.

Lá de cima, Zé da Mula sentou e rezou por horas até que o primeiro trovão ressoou e fez o solo tremer. Depois, os estrondos se repetiram sem parar. Uma trovoada sem fim. Zé olhou para cima e se ajoelhou, pedindo que Deus fosse piedoso com o povo da cidade. Todavia, Deus é voluntarioso e só faz o que deseja. E ele queria sangue. Como os anjos avisaram, o céu se abriu e um pedaço despencou lá de cima, caindo sobre a praça e levando tudo para dentro da enorme cratera que se formou.

O que antes era vila, virou buraco. Das pessoas que Zé tentara salvar, não sobrou nem pó. Por décadas ouviu-se falar das tragédias anunciadas por Zé da Mula, contudo, dele nunca mais tiveram notícia. Uns dizem que morreu na queda do asteroide, outros juram que o viram, morando nas cavernas lá para o fundo do Grotão. A verdade é que Zé nunca mais previu nada, nem tragédia, nem milagre, até o fim dos seus dias.


Miniconto escrito para o grupo Fábrica dos Sonhos do Facebook.

2 comentários:

Sônia disse...

Eita!!!! Apocalipticamente, bom!!!!!!!

Lívia Cavalheiro disse...

O.O Mas, gente! Por que ninguém acredita em apocalipse quando se falam dele?

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