segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O Herdeiro

O Herdeiro

Minha mãe costumava dizer que eu tinha sangue azul. Obviamente acreditava que era apenas um eufemismo para o que ela achava dos meus modos e meu paladar excêntrico. 

Isso foi antes da invasão.

Havia sido uma noite comum até o estrondo acordar a todos e o chão tremer por longos minutos.  A perspectiva excitante de estar presenciando um terremoto - coisa que nunca acontecera nem perto de onde morávamos - acabou no momento em que vi o pavor nos olhos de minha mãe.

Quando ela me empurrou para dentro de um armário que eu nunca havia notado no corredor e me vi em uma passagem estreita e interminável, percebi que algo realmente muito estranho estava acontecendo.

Que ela estivera esperando que algo assim acontecesse, já tinha ficado claro para mim. Mochilas com mantimentos e, para meu choque, armamentos estavam a nossa espera em uma pequena câmara escavada em uma parte do túnel que continuamos seguindo por horas. Devíamos estar chegando ao limite da cidade, pelos meus cálculos, quando ela achou seguro pararmos.

Minha cabeça estava arrebentando de duvidas que eu soltei como uma enxurrada à qual ela escutou passiva. Depois que eu silenciei foi a vez dela me responder. Não era justo, e nem seguro, que eu não soubesse. Não mais.

Minha família finalmente me encontrara e tinha vindo me buscar. Minha família real. Literalmente. Meu pai havia sido o soberano de Lexymo, um planeta do quinto sistema estelar no quadrante z da Via Láctea e, quando sua própria família o matara para ocupar seu lugar, minha mãe fora enviada junto comigo para a Terra, cuja distância e insignificância planetária nos deixariam a salvo dos usurpadores.

Aparentemente a distância não tinha sido suficiente.  Ou a insignificância... Ou a lucidez de minha mãe. Porque era muito improvável que qualquer uma daquelas palavras fizesse realmente sentido.

Contudo, antes que conseguisse formular mais algum pensamento, uma voz ácida gritou num idioma desconhecido, palavras que eu compreendi perfeitamente. O medo começou a circular em minhas veias no mesmo instante que a terra que nos abrigava voltava a tremer. Eu e minha mãe fomos içados no ar, tal qual barras de ferro atraídas por um imã, em direção ao céu e à enorme nave espacial que somente agora percebia.

Assim que fomos soltos sobre o piso frio da nave e nos vimos cercados pelos seres que nos perseguiam, minha mãe não ficou esperando impassível pelo seu destino. Antes mesmo que me desse conta, ela já havia matado uns três ou quatro.

Infelizmente percebi tarde demais a importância das aulas de tiro que ela implorara para que eu fizesse e que nunca compareci.  Eles precisaram de apenas um tiro de suas armas de laser para me acertar, depois que finalmente mataram minha mãe.

Por alguns segundos não compreendi o que era aquele líquido que escorria de meu peito, quente, viscoso e... AZUL.

Por fim, percebi que realmente não era um mero eufemismo de minha mãe. Esse foi o último pensamento antes de cair sobre a poça celeste que se formara com meu sangue.



miniconto escrito para o grupo Fábrica dos Sonhos do Facebook 

2 comentários:

Sônia disse...

Uau! Que ritmo! Que virada! AMEI!!!!!!!

Lívia Cavalheiro disse...

Uau!²

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