sábado, 27 de julho de 2013

Doralice

Reginaldo agarrou-se ao balcão quando o mundo, de repente, começou a girar ao contrário. É claro que não foi tão de repente assim, ele sabia. Como sabia também que o efeito das inúmeras doses de cachaça que acabara de tomar somente iria passar no dia seguinte, depois de uma boa e dolorosa ressaca. Porém, como o garçom só estava esperando-o sair para fechar o bar, Reginaldo decidiu voltar para casa.  Não que ele quisesse, era penoso demais entrar naquele sobrado e não encontrar mais Doralice.

Doralice era a razão de seus dias, a alegria de suas noites, o fogo em suas veias. Fazia agora três dias desde que a mulata sumira. E a partir de então, Reginaldo era um nada. Ele procurara e perguntara, mas nenhuma das vizinhas fofoqueiras vira alguma coisa. Tudo que restara a ele fora a promessa que os meganha fizeram de que iriam procurá-la.

Nem o ar frio da noite fez com que o cérebro de Reginaldo entrasse nos eixos, enquanto ouvia a velha porta de ferro do bar ser fechada atrás de si e ajeitava o surrado chapéu panamá sobre sua cabeça. Cambaleando, Reginaldo só se deu conta de que estava sendo seguido ao tropeçar e precisar de um tempo para firmar-se novamente de pé, avistando os dois homens alguns passos atrás. As usuais lâmpadas queimadas não deixavam que visse seus rostos, mas o arrepio que percorreu sua espinha o avisou de que não eram boa companhia.

Se fosse numa outra hora, talvez num dia em que Doralice não estivesse sumida e ele estivesse sóbrio, Reginaldo provavelmente daria conta dos dois. Ele era fraco pra bebida, mas seu porte normalmente desestimulava brigas.

Fingindo não ter percebido nada e torcendo para que a tensão jogasse logo adrenalina em seu organismo o suficiente para clarear suas ideias, Reginaldo percorreu os metros que faltava até a esquina da rua que dava na entrada do morro. Se chegasse até lá estaria seguro. Conhecia aqueles becos e vielas como ninguém. Contudo, assim que dobrou a rua, precisou parar e respirar fundo. Sua cabeça voltara a rodar...

Suando frio, Reginaldo tentou correr e se afastar. Os dois homens estavam muito perto agora. Era até estranho que ainda não conseguisse ver seus rostos, mesmo na penumbra. Começou a sentir alívio ao alcançar o pé da ladeira. Ali eles não se atreveriam a entrar, quem quer que fossem. E, se precisasse, era só chamar o Leco para ajudar. Ninguém se metia com o Leco...

_ Doralice te mandou um recado.


Ao ouvir aquelas palavras, Reginaldo estacou. Mais que o tom informal, quase debochado, do aviso, foi a voz de quem o pronunciou que fez seus olhos se arregalarem de susto. Jamais imaginara que ouviria aquela voz de novo. Não depois de todo aquele tempo.

2 comentários:

Sônia disse...

E???????????????????????????????????????

Lívia Cavalheiro disse...

E o resto?!?!?!?!!?!?

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