sábado, 17 de novembro de 2012

A Última Primavera


Cecília abriu as cortinas da floricultura assim que entrou. A primavera sempre fora sua estação preferida, talvez por isso sua avó tenha lhe deixado a loja como herança. Mas ela preferia que as vendas aumentassem, admitiu ao ver os poucos trocados que havia na caixa registradora.  Mantivera o local funcionando do mesmo modo que sua avó e, mesmo assim, quem comprava suas flores nunca voltava, por mais que elogiassem a aparência das gérberas e o perfume das rosas.

O tilintar do sino atado à porta fez com que Cecília deixasse de lado as suas preocupações e fosse atender os clientes que chegavam. Uma coroa de flores. Não era um pedido realmente estranho para uma floricultura, mas como nova proprietária, era a primeira que entregava, contudo, o mais estranho era a quem se destinava: a uma moça que comprara um ramalhete de flores do campo poucos dias antes. Reprimindo o choque pela coincidência, Cecília rumou para casa, dando o dia de trabalho por encerrado.

Alguns dias depois, outra coincidência deixou Cecília com o coração apertado. Um dia antes, um jovem estivera escolhendo cuidadosamente um enorme buquê de rosas vermelhas que ofereceria à namorada ao pedi-la em noivado. E agora, acabara de vê-lo transtornado, amparado por amigos perto dali. Preocupada, ofereceu ajuda e acabou descobrindo que a garota, para quem montara o buquê com tanto capricho, fora encontrada morta ao lado das rosas.

Cecília não acreditava em coincidências e uma preocupação se instalou em sua mente, por isso resolveu que ia tirar aquela história a limpo. Ela não tinha como entrar em contato com todas as pessoas que haviam comprado flores em sua loja, porém ainda podia verificar os endereços de suas últimas entregas.

Não encontrou ninguém nos dois primeiros endereços, já o terceiro era do cadastro de uma empresa onde, de algum modo, obteria respostas. Saber que a senhora, para quem entregara uma linda orquídea, morrera pouco tempo depois fez seu sangue gelar nas veias.  Sentindo-se aterrorizada a cada nova visita, Cecília já não buscava respostas para suas preocupações, mas sim um fio de esperança de não ser, de algum modo, uma assassina em série.

A noite já ia alta, pouquíssimas pessoas ainda estavam pelas ruas. Cecília destrancou a porta da floricultura e entrou rapidamente. Obviamente não pudera comprovar todas as vendas, mas conseguira conferir quase todas as entregas. E constatara o pior: quem recebera suas flores acabara morrendo. Que terrível maldição seria aquela?

Olhou para os coloridos ramalhetes que enfeitavam o lugar, considerando-se incapaz de apreciar aquela beleza. Agora que o que mais temia se confirmara, não sabia o que fazer. Ou talvez soubesse. Vasculhou as gavetas e armários até encontrar o que procurava. Fechou as cortinas, trancou a porta e sem parar para pensar no que estava prestes a fazer, jogou álcool em todos os cantos, ateando fogo em seguida.

A cidade amanheceu ensolarada. As pessoas seguiam para seus destinos sem se importar muito com o frenético trabalho dos bombeiros que ainda tentavam apagar as últimas chamas que consumiam uma pequena floricultura. Ninguém sentiu pesar pela jovem encontrada carbonizada junto às flores naquela manhã de primavera.


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Miniconto escrito para o grupo Fábrica de Sonhos, no Facebook.


1 comentários:

Daiane Rossi disse...

Caramba, Pri! Que momento mais rosa bebê!! Coitada da moça. Esse conto dá um livro! Que maldição é essa? Por que?! Escreva mais!! O que tinha de tão misterioso nessa floricultura?!

beijos!

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