terça-feira, 30 de outubro de 2012

A Demanda de Camron


A Demanda de Camron

Foi na mesma época em que todos procuravam pelo Santo Graal que tudo aconteceu. Camron era um jovem cavaleiro, sagrado por ninguém menos que Boors, um dos homens mais próximos do rei, para quem havia servido como pajem e escudeiro. Apesar de ter estado em campanha junto ao séquito do próprio Artur, das aventuras que participara após tomar armas, as mais emocionantes se resumiam em pequenas batalhas contra saxões. E delas saíra apenas com arranhões que nem cicatrizes deixariam para se vangloriar depois.

Ao contrário de muitos outros cavaleiros, Camron não almejava riquezas ou títulos. Apesar de não ser o filho mais velho, após a morte de seu irmão em batalha, honrada e lembrada por todos, herdara o direito a tudo. Porém, não recebera reconhecimento como parte de seu legado. Isto ele teria que conquistar por si mesmo. E Camron preferia obter as próprias glórias, sem depender dos favores de ninguém. Íntegro e correto, alimentava a esperança de um dia sentar junto aos cavaleiros mais importantes da Távola Redonda e sabia que, para isso, aproximar-se do cálice, ou ao menos obter uma informação sobre seu paradeiro, já seria o suficiente.

Logo que os cavaleiros da corte de Artur deixaram Camelot em busca do tesouro sagrado, Camron seguiu junto de Boors por algum tempo até que se separaram em busca de suas próprias aventuras. Passaram-se muitas luas sem que se deparasse com alguma contenda que desviasse sua atenção da busca do Graal.

Então, em um começo de noite, quando o vento frio açoitava Camron sobre o cavalo, que seguia devagar depois de um dia inteiro de marcha, e mesmo a proteção da grossa capa de lã que usava sobre a armadura, parecia ínfima frente ao clima, os acontecimentos tomaram outro rumo. O jovem aproximou-se de uma elevação no terreno e sentiu-se revigorar ao avistar falhas na encosta, grandes o suficiente para abrigá-lo durante a noite.

Conduziu o cavalo com impaciência. O animal parecia temeroso de embrenhar-se pela fenda no terreno rochoso para o qual Camron o incitava, mas, tão logo sentiu que a força do vento diminuía à medida que seguia caverna adentro, seus passos se tornaram mais ansiosos. Camron estava exausto, mas sabia que ainda não poderia descansar. Retirou o elmo e desarmou-se. Prendeu as rédeas do cavalo sob uma pedra, livrou-o da sela e da pouca carga que carregava consigo, alimentou-o com a aveia que ainda restava e saiu novamente de encontro ao vento à procura de algo para acender uma fogueira. O sol já começava a sumir, deixando para trás apenas mais frio, quando Camron voltou à pequena caverna que lhe serviria de abrigo. Acendeu o fogo, mastigou um pedaço de carne ressecada, cobriu-se com a manta e ajeitou-se o melhor que pode, junto ao cavalo que já procurava descansar.

Reviu seus passos desde que deixara o castelo de Camelot e sentiu a desesperança inundar-lhe. Quem era ele para merecer encontrar o Graal? Soubera que alguns dos cavaleiros da Távola Redonda já haviam sucumbido à demanda e agora jaziam mortos pelos quatro cantos do reino de Logres. Reunindo toda fé que possuía em Nosso Senhor, a quem aprendera a crer e temer, rezou pedindo que, de algum modo, Ele lhe mostrasse o caminho que deveria seguir.

O sono demorou a chegar apesar de todo o cansaço que sentia, contudo, quando Camron finalmente adormeceu, o sonho pareceu iniciar de imediato. A fogueira que o aquecia tinha desaparecido e em seu lugar o breu do interior da caverna só era quebrado por pequenos vagalumes que esvoaçavam perto da entrada. Incapaz de conter-se, como sempre acontece nos sonhos, Camron seguiu os insetos reluzentes, subiu a encosta até quase o topo e lá encontrou outra fenda formando nova gruta. A ansiedade que sentiu ao colocar os pés na entrada escura só aumentou quando não conseguiu prosseguir. Parecia que havia uma parede invisível que o impedia de ir além. Porém, antes que Camron desistisse e retornasse pelo caminho que viera, ouviu uma voz que parecia vir de dentro de sua mente.

Escolha...

Diante de seus olhos, os vagalumes iluminaram o fundo da caverna, na qual ele ainda não conseguia entrar, e ele conseguiu divisar uma bifurcação. Seria sobre essa escolha que a voz se referia? Como se ouvindo seus pensamentos, a voz misteriosa voltou a soar.

Um dos caminhos o levará à glória que há tempos procuras alcançar. O outro lhe dará o graal de sua vida, sua felicidade e alegrias. Mas a vitória, tanto em um quanto no outro, dependerá mais que nunca da retidão de seu caráter.

Como se estivesse caindo de um abismo, Camron acordou sobressaltado. O fogo se resumia a poucas brasas que teimavam em permanecer acesas e o frio enregelava seus ossos. Por um breve segundo esperou ver o brilho dos vagalumes na entrada da caverna como no sonho, mas era apenas o negrume da noite sendo substituído pelo raiar do dia.

Assim que terminou de armar-se e selar novamente a montaria, Camron aproximou-se da abertura da caverna com receio. Esperava encontrar a trilha que tomara em seu sonho, mas nada descobriu na parte de cima da montanha em que estava. A frustração ameaçou tomá-lo, mas, temente a Deus como era apropriado aos cavaleiros da corte de Artur, resignou-se e tentou esquecer-se do devaneio que tivera. Deste modo, Camron percorreu muitas léguas naquele dia e nos seguintes, parando apenas para conseguir provisões e descansar durante a parte mais escura da noite, que caía cada vez mais cedo naquela época do ano.

Durante o alvorecer e o crepúsculo, o brilho da friagem e do sereno nas plantas enganava a vista. Por isso, Camron demorou a distinguir o que via no alto do morro à sua frente, e mesmo quando pareceu compreender, receou estar sendo ingênuo. Desceu do cavalo, retirou o elmo para que nada o atrapalhasse e forçou a vista. Lá estava, um brilho que parecia aumentar a cada momento e que Camron sentia que poderia cegá-lo. Certo de que afinal seu sonho havia sido um aviso, nem se preocupou em prender o animal antes de subir a encosta íngreme. 

A noite desceu por completo quando Camron alcançou a entrada e divisou com dificuldade a bifurcação ao fundo. Ao contrário do que se poderia supor, na pequena câmara formada, um archote queimava, iluminando o local, como esperando por alguém para usá-lo. A mesma ansiedade que o acometeu no sonho, pareceu imobilizá-lo por um momento, mas após o primeiro passo, todo hábito de bom cavaleiro prevaleceu. Alcançou a tocha e rumou com cuidado até a divisão entre os caminhos que deveria escolher.

As palavras que ouvira em seu sonho pareciam ecoar na mente de Camron como se as tivesse acabado de ouvir. A glória ou o Graal? Nunca antes custara tanto tomar uma decisão. Até o momento em que tivera aquele sonho estranho, pensara que a busca pelo Graal lhe renderia as glórias necessárias para tomar um lugar na Távola Redonda. Mas algo lhe dizia que, talvez, não fosse assim.

Olhou para os dois caminhos tentando decifrar seus rumos, mas, tirando as direções opostas, estes eram de todo iguais até onde a vista alcançava. De algum modo sabia que a partir do momento que escolhesse uma direção, não poderia desistir e retornar e, por isso, procurou observar com toda atenção cada uma.

Inesperadamente, o ar soprou brevemente na direção de Camron, vindo do fundo de um dos túneis, trazendo consigo um perfume suave e inebriante que parecia prometer algo belo e celestial. O que quer que encontrasse, seguir naquela direção só poderia ser obra de Deus e Camron quase podia ver o Graal tão desejado no final do caminho.

Estava prestes a dar o primeiro passo quando um som, vindo do outro túnel, fez com que estacasse no lugar. Um rosnado baixo, gutural e inumano, misturado com alguns gritos de pavor tão baixos e seguido pelo inconfundível som de uma espada cortando o ar, que, se não fosse o silêncio sepulcral dentro da caverna, Camron não teria conseguido escutar. Um arrepio percorreu cada centímetro do corpo do cavaleiro e ele soube que sua decisão estava tomada.

Com um último olhar para o túnel de onde vinha o aroma delicioso, Camron virou-se e seguiu pelo caminho onde ouvira os gritos. Tentava caminhar o mais silenciosamente possível para não ser surpreendido. Pareceu que caminhara por horas até ouvir novamente o rosnado, agora mais forte e ameaçador. Camron apressou o passo, notando alguns rasgos de claridade mais à frente. Deixou a tocha que segurava e desembainhou sua espada, segurando-a firmemente com as mãos à frente do corpo, pronto para atacar ao menor sinal de perigo.  Mas não imaginara em nenhum momento a cena que encontrou.

Sobre um chão coalhado de ossos, um dragão – não tão grande quanto aquele caçado pelo Rei Pellinore, mas ainda assim um temível dragão – estava caído no meio de uma câmara, ainda com as narinas fumegando. A um canto, um guerreiro jazia morto, com a espada, o escudo e parte de sua armadura derretida pelo fogo produzido pelo imenso monstro. Mas o que chamou a atenção de Camron em toda a cena que observava era a donzela caída embaixo da besta.

Assim que viu a donzela, Camron soube que não lhe importava se esta fosse uma princesa ou apenas uma criada, se viesse das terras frias do norte, de algum ponto do país do Verão ou mesmo descendesse das Ilhas Sagradas. Ele a amaria até o fim de seus dias. Com cuidado, aproximou-se da fera, cujo sangue esverdeado saia por uma ferida profunda na altura em que Camron achava que estaria seu coração. O guerreiro morto tinha conseguido matá-lo afinal, pensou com um misto de frustração e alívio. Parecia fadado a não participar ativamente de nenhuma aventura.

Camron olhou novamente para a donzela, seus cabelos cor de cobre e o rosto pálido hipnotizando-o por alguns momentos. Tinha que tirá-la dali e para isso, primeiro precisava alcançá-la. Tentou pular por sobre o corpo estendido do dragão, mas o calor que ainda desprendia era muito forte e impedia-o. Por isso, empunhou a espada que trazia e com um único golpe cortou a cabeça da fera, que rolou para o lado, garantindo a passagem livre de Camron até a donzela.

Após retirar a donzela debaixo da pata do dragão, Camron carregou-a nos braços pelo caminho de volta do túnel, rezando intimamente para que tivesse chegado a tempo de salvá-la. Chegando ao lado de fora da montanha, percebeu que já havia amanhecido apesar do tempo parecer ter corrido de modo diferente no interior da montanha. Ao sentir a claridade e o parco calor do sol tocando seu rosto a moça abriu devagar os olhos de um verde límpido e murmurou para seu salvador um agradecimento, o que renovou-lhe as forças e encheu seu coração de alegrias.

Camron serviu à donzela um pouco da água e do pão que havia conseguido numa ermida, onde parara para se alimentar no dia anterior, o que ajudou a restaurar um pouco de suas forças e da cor em seu rosto. E foi então que ela conseguiu contar-lhe sua história. Seu nome era Adryna, filha do rei Loïc, senhor daquelas terras. Ela havia sido raptada dias antes, pelo dragão morto na caverna – assim como tinha acontecido com as suas quatro irmãs mais velhas anteriormente. Contudo, ao contrário do que ocorrera nas vezes anteriores, o destino lhe agraciara sob a forma de um valente cavaleiro que vencera a fera antes que esta lhe tomasse a vida.

Lady Adryna falava de modo arrebatado, as palavras cobertas de ternura e gratidão, reconhecendo em Camron seu salvador e entregando-lhe seu coração. Todavia, uma vez que para este quem havia matado o dragão havia sido o outro cavaleiro que ferira gravemente o monstro e pagara com a própria vida no interior da caverna, a declaração da donzela não lhe causara júbilo, apenas culpa e consternação por não ter desfeito o mal-entendido.

Gentilmente, Camron acomodou a moça sobre o cavalo e guiou-os a pé, até o castelo do rei Loïc, chegando quase ao anoitecer. O rei, que já havia perdido as esperanças de ver Adryna, ficou exultante ao reencontrá-la e dirigiu a Camron todas as suas atenções. Devia a vida de sua filha ao jovem cavaleiro, a única que lhe restara após os sucessivos ataques do temível dragão, e sentia uma imensa gratidão por este. Em sua homenagem mandou preparar um banquete e garantiu-lhe todas as honras do reino. E também, para completa surpresa do cavaleiro, informou-o que, assim como havia feito das outras vezes em que tivera uma de suas filhas raptada pelo dragão, ele prometera àquele que conseguisse matar a fera e salvar a princesa, o direito de desposá-la.

Apesar de estar com o coração repleto de felicidade ante a perspectiva de unir-se à donzela a quem amou à primeira vista, Camron também sentiu que era um completo farsante. Ele não havia derrotado o dragão, apenas entrara na hora certa e aproveitara a oportunidade. Porém, como afirmar isso em voz alta? De que maneira conseguiria desistir de lady Adryna sem que, com isso, ferisse o próprio coração de morte? Imerso em suas considerações, Camron mal aproveitou a festa que o rei Loïc lhe dedicava. Bardos cantavam suas melodias, enalteciam-no, contando maravilhas que ele nunca se aproximara de fazer, mas Camron não se dava conta. Nem mesmo o fato de Adryna não conseguir desviar o olhar de sua pessoa, tirou Camron de seus pensamentos e, aproveitando um momento em que a atenção de todos estava voltada para a chegada de mais um tonel de vinho, retirou-se aos seus aposentos sem ser questionado.

Em tudo e por tudo, Camron havia dedicado sua vida à cavalaria. Antes mesmo de ter força suficiente para segurar a espada que agora adornava sua cintura, almejara sentar-se junto aos outros cavaleiros na Távola Redonda, brindar ao rei Artur, proteger Camelot. E, naquele momento, em meio a comemorações e alegria – ao mesmo tempo em que sentia sua alma ser corroída pela culpa -, soube que precisava agir como tal.

Nunca antes havia estado em uma situação onde se encontrasse a ponto de esquecer seus valores e suas obrigações. Estava certo de que se mantivesse o silêncio sobre o ocorrido com o dragão no interior da caverna, desposaria lady Adryna com as bênçãos de todos. Contudo, por estar ocultando a verdade, não teria paz em seu espírito. Não obstante, se contasse toda a verdade, o rei Loïc passaria a desconsiderá-lo como um pretendente a altura de sua filha e, portanto, estaria abrindo mão de sua felicidade. Acreditava que nem mesmo se voltasse à busca do cálice sagrado e obtivesse êxito, sentir-se-ia realizado.

O dia mal começara a clarear quando Camron deixou o cômodo que o rei Loïc mandara aprontar para ele. Desceu até o pátio, onde encontrou um pajem a quem solicitou que aprontasse seu cavalo e trouxesse suas armas. Chegou mesmo a pensar em deixar o local sem falar com o rei, mas a conduta de cavaleiro, ainda mais um cavaleiro da Távola Redonda, assim não o permitia. Já parcialmente armado – faltava-lhe ainda o elmo e o escudo – e com seu animal pronto para partir, Camron solicitou uma audiência com rei Loïc, como ditava sua consciência e os bons costumes.

O rei Loïc parecia surpreso ao receber Camron tão cedo em seus aposentos. Vê-lo com a aparência bastante séria, logo nas primeiras horas do dia, não parecia um bom presságio. Camron aproximou-se cabisbaixo e ajoelhou-se defronte ao rei, tomado por imensa vergonha.

_ Vim solicitar vossa permissão para deixar o castelo.

_ O que dizes? Pensava que seria de vosso agrado desposar minha filha, cuja vida salvaste de morte terrível.

_ Acredite, senhor, nada me deixaria mais feliz do que permanecer em vosso reino. Todavia, me encontrava em meio à demanda do Graal, juntamente com meus companheiros da corte de Artur, e nesta devo permanecer até o dia que Nosso Senhor determinar.

Apesar de toda admiração pelo cavaleiro à sua frente, o rei Loïc sentiu-se indignado pela atitude do jovem que ainda no dia anterior parecia bastante disposto a tomar a mão de sua filha. Contudo, sempre fora um homem bom, que não costumava deixar as emoções falarem mais alto, principalmente quando se sentia encolerizado. Por isso procurou argumentar com Camron, se não para fazê-lo reconsiderar, apenas para que melhor compreendesse sua aparente mudança de atitude.

_ Não posso impedir que nos deixe, visto que me encontro em dívida com vossa pessoa. Entretanto, acredito estar no direito de questionar sobre as causas de tão súbita decisão, pois que ainda ontem parecias deveras satisfeito. Se a razão for tão somente a busca pelo cálice sagrado, cuja palavra de cavaleiro empenhaste em empreender, será com muito pesar que lhe dou minha permissão para que se vá. Contudo, afirmo que, ao fazê-lo estarás causando muito mal a estes que estarão para sempre em dívida contigo.

_ Que Deus não permita que eu seja a causa de qualquer mal. Tenho por todos grande estima desde que pus meus olhos sobre vossa filha.

_ Então saibas que lady Adryna será a maior prejudicada com sua partida, posto que estará marcada para sempre. Não haverá outro homem, cavaleiro ou serviçal, que a aceitará após ter sido recusada por vós.

_ Por Deus, rogo que não digas uma vilania dessas, que já sinto arrependimento pelo que farei a quem tenho tanto apreço.

_ Me conte então, por qual o motivo desgraçará minha filha?

_ Eu não mereço desposá-la, visto que não fui eu quem a salvou do dragão.

_ Mas se foste tu quem a trouxeste de volta!

Camron soube que havia chegado o momento em que deveria contar a verdade e assim, perder toda a simpatia que haviam depositado em si. Estufou o peito em busca de dignidade e declarou com voz firme:

_ Todavia, quando eu a encontrei, outro cavaleiro já havia dado cabo da besta, tendo morrido em seguida. Portanto, acredito que a reputação de sua filha está salva, porquanto sua mão seria para aquele que a salvasse.

Ao compreender que o jovem não tencionava lhe fazer desfeita, do contrário, estava agindo como um verdadeiro cavaleiro não cometendo perjuro, o rei Loïc sentiu-se ainda mais entristecido por não poder celebrar tão honroso casamento e procurou logo acalmar os ânimos. Pediu a Camron que não se apressasse e ao menos ouvisse toda a história sobre o rapto de lady Adryna pelo dragão da montanha. A princesa, convocada à câmara real, não demorou em juntar-se a eles.

Para Camron, lady Adryna estava ainda mais bela do que em qualquer outro momento em que lhe colocara os olhos. Todavia, acreditando-se cheio de desonra e desmerecedor de qualquer consideração, baixou os olhos em sinal de desconforto.

_ Querida filha, pedi sua presença para que contes a este jovem cavaleiro toda a desgraça que ocorreu desde que foste levada daqui pela maldita besta. Porquanto seu testemunho deverá ser de mais valia que o de qualquer outro.

_ Como quiseres, senhor meu pai – concordou Adryna, fazendo uma vênia na direção de Camron. – Há cerca de uma semana, solicitei ao meu pai que me deixasse colher algumas flores da estação para que pudesse, com elas, ornamentar o altar para a missa em honra de minha mãe. Como já havia se passado mais de um ano desde que o dragão levara minha última irmã, e acreditando que talvez estivesse o reino já livre de tão desgraçada ameaça, fui autorizada, contanto que não fosse desacompanhada e nem me afastasse dos servos que deveriam me proteger. Entretanto, nem mesmo tantos cuidados foram o suficiente para me salvar. Mal me afastara um quarto de légua do castelo, quando percebi o calor emanado pelo fogo da criatura alcançar as pessoas ao meu lado, queimando-as viva. Em seguida, fui alçada aos céus por suas garras e tal foi o medo ante a certeza de meu infortúnio, que desmaiei e só recobrei a consciência quando já estava no interior da montanha onde me encontraste.

_ E o outro cavaleiro? – indagou Camron.

_ Assim que percebemos que lady Adryna havia sido levada pelo dragão, convoquei os cavaleiros do reino, além de enviar mensageiros aos reinos vizinhos, da mesma maneira que fiz das outras vezes, – rei Loïc tomou a palavra. - Não posso condenar os homens por não se interessarem em salvar mais uma de minhas filhas, quando tantos outros já haviam dado suas vidas em vão pelas outras quatro. Deste modo, quando somente sir Jeremy se voluntariou, eu realmente não me enchi de esperanças.

_ Eu não sei o motivo pelo qual o dragão não me matou assim que chegou à sua toca, entretanto, quando sir Jeremy finalmente apareceu, encontrou-me no limite das minhas forças, visto que não me alimentava há dias. Ele tentou me alcançar, chegou mesmo a ferir o monstro com sua espada, contudo não foi rápido o suficiente para se desviar das chamas que este lançara, enquanto caia sobre mim.

_ Foi nesse momento que eu a encontrei. Depois que este cavaleiro, sir Jeremy, já havia ferido o dragão, portanto, não tenho nenhum mérito além de tê-la tirado daquele lugar.

_ O senhor não compreende, sir Camron. Aquele dragão não morreu do ferimento causado por sir Jeremy. É provável que tenha ajudado, obviamente, mas ele já havia sido ferido outras vezes e era apenas uma questão de tempo até que se recuperasse e me matasse.

_ O que o senhor fez ao entrar na caverna, sir Cameron? – questionou rei Loïc, como quem já sabe a resposta.

_ Apenas afastei a fera para poder alcançar sua filha, alteza.

_ E de que modo?

_ O dragão ainda resfolegava um vapor incinerante, então, cortei-lhe fora a cabeça...

_ E ainda alega não tê-lo matado? Pelas amargas experiências que tivemos com a fera, meu jovem, a única forma de detê-la seria arrancando-lhe a cabeça.

Atônito, Camron olhou do rei Loïc para lady Adryna, sentindo-se um tolo. Mesmo que tivesse realmente matado o dragão, possibilidade que aos poucos admitia a si mesmo, não o tinha feito num ato de bravura como seria esperado por um cavaleiro, ainda mais um advindo da Távola Redonda, companheiro de Artur. Aparentemente sua sina era a de nunca entrar em uma aventura. Não que matar o dragão não tivesse, de certa forma, sido uma aventura - rei Pellinore tentara o mesmo durantes décadas -, mas não parecia quando não vinha acompanhado de um bom embate, muito suor e uma boa quantidade de sangue, principalmente vindo da besta.

_ Você me parece decepcionado... – rei Loïc declarou após observar o cavaleiro durante alguns momentos. – Se realmente não estiver interessado em levar a glória sobre a morte do dragão, deixemos a verdade entre nós. Anunciarei que o responsável pelo salvamento de minha filha foi sir Jeremy. Deste modo, acredito que a honra de lady Adryna ficará resguardada e, portanto, ficarás livre de qualquer compromisso e poderás partir quando desejar.

Camron anuiu, ainda imerso em pensamentos, mas já sabia o que fazer. Seu coração batia em um mesmo compasso há dias, desde que vira lady Adryna pela primeira vez, entre a vida e a morte, caída sob o dragão. Tudo agora fazia sentido. E se isso significava uma vida longa e calma naquele reino, que fosse. Sempre teria as justas para poder combater.

Ajoelhou-se à frente do rei Loïc, onde pediu para que lhe concedesse a honra de desposar lady Adryna, contudo, não como uma forma de recompensa por ter matado o dragão. Compreendera que Adryna era o seu graal. A sua demanda era por ela. Voltou-se para a amada e, em um gesto apaixonado, retirou o anel que levava consigo como uma lembrança de seus pai, um dos seus bens mais preciosos, e depositou-o nas mãos dela antes de beijá-las. Não disse palavra. Apenas esperava que seu gesto fosse o suficiente. Com os olhos marejados Adryna sorriu graciosa, baixou o rosto e pediu, num fio de voz:

_ O senhor me concederia um dom, se eu lhe pedisse?

_ Um dom? - Camron inquiriu intrigado. - Mas é evidente! Para milady buscaria as estrelas, se assim me pedisse. O que desejas?

_ Prometa-me que, aconteça o que acontecer, estarás ao meu lado até o fim de nossos dias.

Com o coração transbordando de felicidade, Camron ajoelhou-se novamente aos pés da dama, segurando-lhe as mãos enquanto respondia:

_ Esta é uma promessa que de forma alguma deixarei de cumprir.


Em meio aos muitos preparativos para o casamento, Camron seguia apressado pelos corredores do castelo. Perdera mais tempo do que pretendia redigindo e enviando uma mensagem à corte do rei Artur, e agora tinha pouco tempo para preparar-se para a cerimônia. Virou no corredor que levava aos seus aposentos quando a voz de lady Adryna lhe chegou aos ouvidos. Contudo, não era a voz gentil e melodiosa com que estava se habituando e sim sussurros rápidos e raivosos. Temendo por sua amada, Camron seguiu os sons, curioso por saber o que poderia estar acontecendo. Estacou a porta de uma pequena câmara que lhe passara despercebida a tempo de ouvir o impacto da bofetada e acompanhar o inesperado diálogo que se seguiu.

_ Como ousas me ameaçar, sabendo o que sabes sobre mim?

_Tirastes o que me era mais caro e, portanto, nada mais tenho a temer, milady.

_ Quem? Por acaso estás se referindo ao pobre sir Jeremy? - Adryna perguntou cheia de malícia, sorrindo ao perceber a palidez crescente no rosto da jovem caída aos seus pés. - Ou achavas que não havia reparado nos olhares que trocavam? Achas realmente que eu deixaria uma reles serva se unir a um cavaleiro? Se tive coragem de acabar com a vida de minhas irmãs, para poder reinar absoluta sobre essas terras, como não ousaria desfazer um romancezinho sem cabimento?

Nem em seus piores pesadelos Camron poderia imaginar que lady Adryna, algum dia, poderia cometer as atrocidades que acabara de dizer. Devia haver algum engano. Perplexo, abriu a porta de carvalho, deixando-se ver pelas duas mulheres ali dentro.

_Ora, mas se não é meu amado cavaleiro. Não deverias estar se preparando para a cerimônia do nosso casamento?

_ O que está acontecendo aqui, milady?

_ Pobre sir Camron, não consegue acreditar que a donzela cuja vida salvou de um destino cruel possa ser, na realidade, a causadora de todo mal desse reino. És tão ingênuo e tolo quanto aparenta ou apenas não quer ver a realidade como meu pai?

_ Então tudo que dissestes... Mas eu a salvei do dragão!

_ Ah, o dragão... Realmente foi uma pena ter perdido meu prestativo amigo. Todavia, ele serviu ao seu propósito...

_ Como podes ser capaz de tamanha vilania?

_ Quando tudo que lhe guarda o futuro é ser entregue ao primeiro cavaleiro de segunda classe interessado em servir em vez de comandar, você aprende rapidamente a tomar as rédeas do próprio destino.

_ Por Deus! Vou imediatamente ao seu pai...

_ Não esqueças que me prometestes um dom, sir Camron. E como um bom cavaleiro, não podes quebrar a promessa feita. É teu nome, tua honra que está ameaçada.

Camron olhou diretamente nos olhos ferozes de Adryna. A despeito de tudo, ela estava certa. Empenhara sua palavra. E também seu coração. Mesmo agora, sabendo o que sabia, a amava e lá no fundo de sua alma ardia a esperança de que tudo não passasse de um grande engodo, um intenso pesadelo, ou até mesmo obra de feitiçaria. E era essa esperança que fazia com que seu amor por Adryna não caísse por terra.

Algumas horas mais tarde, sob as bênçãos do padre local e dos olhares das pessoas do castelo, sir Camron e lady Adryna uniram-se em matrimônio. Como contariam os bardos, tempos depois, sir Camron trocou a demanda do graal pela busca da felicidade. E nada alcançara no final. O jovem cavaleiro, honrando sua palavra, nunca desistira de sua amada. Acabara fechando os olhos para as mortes e desaparecimentos que continuaram acontecendo no reino até que, muitos anos mais tarde, cansado de lutar contra sua sina, morreu de desgosto ao aceitar o erro que cometera. Alguns disseram que foi o dissabor de não ter seguido o Graal, outros tantos que foi tudo obra de um veneno, mas nunca se acusou ninguém.


2 comentários:

Lívia Cavalheiro disse...

Adorei!
Este seu conto Arturiano me lembrou muito dos livros da Marion Zimmer Bradley! Senti como se fosse um conto escrito pela própria autora, Pri!

Lívia Cavalheiro disse...

Ah, sim... mas com o seu toque especial! =D

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