quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

XyLo


XyLo


Os humanos eram seres cruéis, XyLo não tinha a menor dúvida. Presenciara algumas das atrocidades de que eram capazes de cometer contra os de sua própria espécie. Se faziam isso com seus pares, o que não eram capazes com os seres que achavam inferiores? Aos androides, programados para servir sem questionar, XyLo não queria lembrar.

Obviamente, não lembrar era algo fora das capacidades de XyLo. Androides possuíam uma memória interna praticamente incalculável, e ele sofrera um upgrade pouco antes da revolução estourar.
Conseguira se afastar do foco do embate, tentando compreender em que momento humanos e robôs tornaram-se inimigos. Fora como um rastilho de pólvora. Num dia um incidente isolado, um humano morto por causa de um defeito de fabricação de um androide doméstico, no outro, milhares de seres artificiais sendo destruídos sem contestar.

XyLo não sabia que possuía emoções. Compreendia o que eram (dicionários eram arquivos básicos entre os androides), porém possuí-las era algo incomum. Mas, ao observar a perseguição e a luminosidade emanada pelas câmaras de incineração, entendeu o que era o medo. Os fluidos pareciam correr de forma mais acelerada entre seus cabos e alguns de seus circuitos definitivamente foram danificados. A única opção que lhe pareceu coerente foi se esconder e fugir.

Ao contrário dos humanos, cujos corpos careciam de descanso e reabastecimento, XyLo só precisava ter um destino, um rumo, para continuar. Existia uma informação armazenada em um arquivo antigo, criado em uma extensão já há muito em desuso, que talvez pudesse ajudar. Se fosse uma informação de humanos, seria considerada uma lenda. Para XyLo, era o que se aproximava mais do que ele sabia significar “esperança”. Iniciou o programa capaz de ler o arquivo e aguardou, enquanto decodificava a informação.

Poucos minutos depois, XyLo já processara informações suficientes para saber o que fazer. De acordo com o antigo arquivo, havia um local para onde os androides deveriam se encaminhar em casos de urgência. Era distante e haveria muitos humanos hostis no caminho, mas XyLo tinha certeza de que conseguiria. Não fora programado para atacar, ou mesmo se defender, contudo, precisou fazê-lo mais de uma vez, e ao final de um tempo já conseguia planejar ataques surpresas a algum humano que porventura visse em seu caminho. Tudo valera a pena. De acordo com as coordenadas estabelecidas, estava muito próximo de alcançar seu destino.

Entrou no antigo galpão ao entardecer. O local estava muito silencioso. Aqui e ali uma poça de óleo ou água marcava o chão. As paredes eram cobertas por enormes prateleiras cheias do que XyLo achou serem peças de reposição. Aproximou-se de um grande botão vermelho que havia em uma parede lateral, assinalada com um grande aviso “Ao entrar, toque o sinal”, e esperou.

Foi tudo muito rápido. Primeiro a sirene, depois grossas barras de ferro impedindo a passagem e, em seguida, XyLo sentiu seu corpo sendo puxado para cima por um grande imã e levado, por passagens acima das paredes divisórias, para uma esteira onde suas peças foram devidamente afrouxadas e retiradas, uma a uma, até se tornarem apenas um grande amontoado de aço e circuitos.

XyLo havia aprendido o que era o medo e a esperança. Nesta última apostara sua sobrevivência. Todavia, nenhum dos seus programas o ensinara a reconhecer um ferro-velho.




Miniconto escrito para o grupo "Fábrica de Sonhos" do Facebook.

PS: Lis, espero que goste

2 comentários:

Lis Santos disse...

gente amei amei amei
ai como tu é cruel, eu já estava imaginando tipo, uma revolução das máquinas
Pra vc ver o quanto os humanos são cruéis, esse arquivo que deu esperança foi praticamente um botão de auto-destruição :(

Lívia Cavalheiro disse...

Lis, eu disse a mesma coisa pra Pri!
Muita crueldade! Pobre XyLo... =(

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