segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A História do Boto

Quarta feira, dia 22, é o dia do folclore. Nada mais apropriado do que um conto sobre uma das lendas que compõe o folclore brasileiro. Espero que gostem. =)



A História do Boto

A notícia da chegada de José Pedro, neto da velha Iracema, correu rapidamente o povoado naquela manhã. Todos os cochichos e falatório das mulheres no mercado eram sobre o assunto. Num fim de mundo daqueles, onde as novidades do século XXI pareciam ter sido esquecidas em um braço qualquer do rio, o que quer que os aproximasse da vida moderna era motivo de  agitação.
A velha Iracema havia sido uma cabocla muito formosa quando moça, mas já era madura quando pegou barriga de um mascate vindo do sul, cheio de tecidos, panelas e fala mansa. O homem morrera de malária um pouco depois do casamento apressado, deixando como herança apenas o filho ainda no ventre e contas penduradas na venda.
As lavadeiras, que usavam as pedras do rio para branquearem suas roupas, discutiram o assunto durante um bom tempo. E acabaram por concluir que a criança, na verdade, era filha do boto – como era o costume quando alguma moça aparecia grávida e sem marido -, e o mascate havia morrido de desgosto por causa da vergonha de ter sido traído.

Fosse como fosse, dona Iracema (na época ainda sem idade para ser conhecida como velha) foi seguindo com sua vida. Arrumou um emprego na venda, como forma de saldar a dívida feita pelo marido e vendia tapioca na praça, logo após a missa do domingo. À medida que o filho crescia, a beleza e os modos do menino encantavam a todos e logo a verdade sobre sua paternidade foi se tornando menos importante. O assunto que rodeava agora dona Iracema era saber lidar com a quantidade de moças da região (e algumas senhoras também) que viviam a rodeá-lo.
A preocupação de dona Iracema era tanta que quando o rapaz mal começara a raspar os poucos pelos que surgiram em seu rosto, ela resolveu mandá-lo morar com alguns parentes na cidade grande, com a desculpa de terminar os estudos. E essa decisão parecera suficiente para acalmar suas preocupações.
O rapaz nunca havia voltado ao povoado para rever a mãe, mesmo quando a febre ameaçou levá-la. As mesmas lavadeiras que um dia especularam sobre sua paternidade, passaram a especular sobre seu destino e, com o pouco material que conseguiam arrancar de dona Iracema, concluíram que o rapaz havia assentado lugar na cidade e arrumado emprego e família.

Isso acontecera há muitos anos. Muito antes do pai de Maíra ser transferido de sua confortável sala com ar condicionado na capital, para um cubículo em um prédio oficial do povoado à beira do rio. Antes da mãe dela se cansar da vida pacata que fora obrigada a viver e abandoná-los.
Se pouco se sabia sobre o destino do filho da velha Iracema, de seu neto, então, menos ainda se ouvira falar. Mas isso não impediu Maíra de divagar nos comentários das pessoas e ficar curiosa sobre o “neto do boto”. Havia uma aura de mistério em torno da história da velha Iracema que a fazia se lembrar das lendas que sua avó lhe contava quando criança. Histórias antigas cheias de magia, enfeites e um bocado de ingenuidade na opinião dela.
Em pleno século XXI, ninguém mais acreditava em filhos de boto. Mesmo naquele fim de mundo. Quando uma moça aparecia grávida, não se colocava a culpa em nenhum ser fantástico que só existe nas histórias dos velhos. Corria-se atrás do desgraçado que se aproveitara da garota e fim de papo.
Com a cabeça cheia de pensamentos como só uma jovem despreocupada é capaz de ter, no fim da tarde, Maíra já havia quase se esquecido daquela história de filhos de botos e netos de velha Iracema. Seguiu sua rotina e foi se banhar na beira do rio como sempre fazia naqueles dias quentes. Ela podia ter nascido na cidade grande, mas depois de tantos anos morando ali, era cria do povoado e, como tal, sabia apreciar um bom banho de rio para refrescar o calor.
Maíra sentia-se livre nas águas do rio. Fora assim desde o primeiro momento que avistara o rio, ainda criança. Nadar por aquelas águas, sentindo-as correr por sua pele; descobrir seus caminhos, suas partes mais fundas, as margens mais atraentes. Era capaz de mergulhar ao lado dos peixes, como se fizesse parte do cardume ou pegar um dos grandes para o jantar apenas com as mãos.
Acostumara-se a percorrer o rio, seguindo seu curso, sozinha. As meninas e os meninos de sua idade sempre pareceram tolos demais para fazer-lhe companhia e rapidamente perderam sua graça. A distração preferida de Maíra era espiar as pessoas ribeirinhas, escondida pelos pequenos barrancos e pedaços de mata que encontrasse.
Vira muita coisa daquele jeito. Brigas de marido e mulher, repletas de gritos e blasfêmias; pescadores limpando o resultado do dia de trabalho, fedendo a suor e escamas; encontros de amantes sorridentes e desejosos de um momento a sós.
Porém, tinha vezes em que somente boiar nas águas do rio era o suficiente para acalmar Maíra. E daquela vez fora assim. Abriu os olhos ao sentir a brisa da noite alcançar seu corpo, ainda a tempo de ver o sol se esconder, tingindo o céu de tons avermelhados que anunciavam que o calor continuaria no dia seguinte, e dar lugar à lua cheia. Ergueu-se refeita, com o vestido – que há muito deixara de tirar para entrar no rio – colado ao corpo esguio. Caminhou devagar, sentindo as plantas e pedras em seus pés e um arrepio estranho percorrer sua espinha. Com os olhos acostumados ao entardecer, procurou à sua volta por nada nem ninguém específico, mas não encontrou.
Uma agonia foi se formando em seu estômago de tal forma que Maíra desconhecia, e que não imaginava que apenas um simples passeio pela praça iria acalmar. Entretanto, chegou em casa, se arrumou e saiu sob o olhar cansado do pai.
Como quase todo lugarejo do interior, naquela época do ano, a praça estava enfeitada para o início dos festejos juninos. Muitas bandeirolas e lanternas, balões e estandartes, tencionavam alegrar o povo e os poucos visitantes que se aventurassem por ali. Algumas poucas barracas ladeavam a igreja, que anunciava novenas e missas especiais naqueles dias, entremeadas com músicas e apresentações mambembes. De um modo geral os moradores estavam mais animados. Mesmo com pouca gente de fora chegando, as pessoas aproveitavam para sair da mesmice de todo dia.
Maíra passou pelas ruas sentindo o formigamento em seu corpo aumentar. Cumprimentou conhecidos e relanceou os olhos para aqueles com quem não trocava palavra em dias normais. Cogitou a hipótese de se juntar às moças sentadas próximas ao coreto, onde uma banda tocava e algumas pessoas arriscavam passos de dança, mas desistiu. Ela preferia ficar num canto sozinha, observando as pessoas indo e vindo, esperando por algo que não sabia o que era e se realmente iria acontecer.
A noite foi passando devagar, enquanto um violeiro mantinha os casais dançando para que os músicos da pequena banda pudessem tomar um trago e descansar. Maíra ignorou boa parte dos olhares e propostas – indecorosas ou nem tanto – que lhe fizeram, mas concedeu um sorriso e uma prosa para alguns poucos.
Bebericou do copo que a serviram, dando ao rapaz que tentara agradá-la um sorriso bonito e falsas esperanças de um passeio em outro dia. Cortou a conversa de um pescador que havia bebido um pouco demais, com a desenvoltura que se esperava de uma moça direita, mas esperta. Já estava quase desistindo de esperar o que quer que fosse quando sua atenção foi chamada para o outro lado da praça, para as pessoas que chegavam.
Seu Tonho, dono da venda, vinha acompanhado de um rapaz alto, de pele clara e bonitos cabelos castanhos, parcialmente cobertos por um chapéu fora de moda. Pelo alvoroço das moças perto do coreto, Maíra percebeu que aquele só poderia ser o tal de José Pedro, neto da velha Iracema.
A história do boto perpassou sua lembrança e ela decidiu olhar o rapaz mais de perto. Como se sempre houvesse estado por ali, juntou-se às garotas no coreto e atentou para o conversê frenético entre elas. Aquele era realmente o neto da velha Iracema. Sim, ele era bem bonito. A amiga da vizinha da dona Iracema contou que ele ia virar doutor. Depois disso, foi um tal de alisa a roupa e ajeita os cabelos, um empresta-empresta de batom cor de cereja, que Maíra logo se incomodou e saiu de perto. Não tinha nenhuma intenção real. Queria ver esse José Pedro. Só isso. Mas o formigamento em seu corpo foi aumentando de tal forma que acabou impelindo-a a chegar mais perto e cumprimentá-lo.

Como amigo da velha Iracema, seu Tonho, incumbira-se da tarefa de apresentar o lugar a José Pedro. O povoado preparava-se há dias para as festas, de forma que o jovem, tão habituado aos costumes da cidade grande, ao menos teria algo para se distrair enquanto visitasse a avó.
José Pedro era, no entanto, muito diferente do que ele esperava. Um moço de poucas palavras e modos respeitosos, tímido até, quase não quisera ir à praça, tomar a fresca da noite e matar a curiosidade das pessoas do lugar.
O dono da venda estranhara as roupas quase formais que José Pedro colocara e já ia questionar o motivo do chapéu panamá que insistira em usar, quando a velha Iracema, apoiada em sua bengala, murmurou parada ao lado da porta de onde se despedia: ‘é lembrança do avô’.
Quando alcançaram as luzes da praça, seu Tonho quase sabia tanto quanto antes sobre a vida de José Pedro. A família? Estava bem, obrigado. Estudava? Acabara de entrar para a Faculdade de Direito. Tocava viola? Só um pouco, para distrair. Namorada? Uma vez, mas acabou. Foi com alívio que reconheceu alguns rapazes numa barraca próxima e apresentou-o a eles, passando a tarefa adiante.
Por ter sido motivo de cochichos entre as moças, desde que souberam de sua chegada, alguns rapazes ficaram ressabiados ao conhecerem José Pedro. Mas, ao tentarem conversar com ele, e obterem muitos monossílabos como resposta, não ficaram tão impressionados assim com a figura bonita que ele fazia. Pensaram que pelo menos ele serviria para atrair a curiosidade das garotas, sempre sedentas de novidades, para perto deles.
Quando viram Maíra se aproximando, acreditaram terem razão e o neto da velha Iracema teria lá sua serventia, afinal. Exibindo o vestido branco com que normalmente ia às missas de domingo, a garota prendia a atenção de todos. Sua pele morena era viçosa e parecia brilhar ao luar. Ela não parecia precisar de nenhum artifício para atrair os rapazes à sua volta.
Tião, um filho de índios que tentava aparentar ser tão moderno quanto seus amigos com parentes na capital, ajeitou a gola da camisa de botões que usava, arrumou o sorriso mais sedutor que conhecia em seu rosto e foi logo se arvorando.
_ Noite, Maíra. Quer um trago?
A garota olhou para ele como se não o compreendesse, deixando Tião chateado e prestes a virar alvo das piadinhas dos amigos. Continuou seu caminho, ouvindo os assovios no seu rastro, sem dar atenção, até ficar em frente a José Pedro.
A agonia que lhe acometera durante toda a noite pareceu chegar ao ápice quando finalmente olhou o rapaz de perto. Por ser bem um palmo mais baixa que ele, teve que levantar o rosto para admirar a pele rosada, os lábios carnudos e olhos cinzentos de José Pedro. Por pouco pensou em não prosseguir mas, enfeitiçada como estava, Maíra tomou coragem e perguntou de uma vez:
_ Quer dançar?
A resposta de José Pedro, aguardada com suspeita e inveja pelos rapazes ali perto, demorou alguns segundos para ser dada. Ele olhou a moça à sua frente, encantadora e desejável e um pequeno sorriso, verdadeiramente sedutor, curvou-lhe a boca, num assentimento mudo.
O burburinho por toda a praça agora se voltava para o casal animado, dançando ao som da bandinha que, de volta ao coreto, tocava as modas mais conhecidas enquanto a noite corria.
Maíra não gostava muito de dançar agarrado. Normalmente, se irritava facilmente com os rapazes que pareciam ter mil mãos em vez de duas e que tentavam apalpá-la durante a dança. Porém, quando sentiu o toque de José Pedro em sua cintura, nem um centímetro além do que o decoro permitia, desejou que ele tentasse. A pressão gentil que fazia com que seus corpos se aproximassem e roçassem um no outro durante os movimentos ritmados da música, a deixou sem fôlego.
Para que pudessem se ouvir com clareza, foram obrigados a juntar os rostos e falar nos ouvidos. E assim ficaram sabendo muito mais da vida um do outro do que poderiam ter imaginado no início daquela noite.
José Pedro contou sobre a vida na cidade e do fato de ter entrado para a faculdade de Direto para agradar ao pai. Seu sonho era viajar pelo mundo, viver no estrangeiro. Maíra falou como era a vida antes da mãe sumir no mundo e da saudade que por vezes sentia. Tinham muitas coisas em comum: apreciavam as cirandas, as tapiocas e um bom prato de açaí; se arreliavam durante missas longas e perdiam a paciência com as apresentações de circo.
Riram juntos de besteiras, cantaram juntos com o violeiro – que voltou novamente a tocar quando os homens da banda, já cansados, resolveram se retirar –, e só se despediram quando a noite começou a dar os primeiros sinais de que ia acabar. Prometeram se encontrar novamente na noite seguinte, com olhos brilhantes e um beijo casto na bochecha.
O dia pareceu se alongar ao máximo e, quando finalmente o céu começou a escurecer, Maíra era uma ansiedade só. Colocara o vestido novo que uma tia havia lhe enviado de aniversário, garantindo que era a última moda na cidade grande, e uma boa dose de seu perfume preferido. Pintou os lábios e arrumou os cabelos, rezando para causar uma boa impressão.
José Pedro a esperava na porta da igreja, de onde podiam ouvir o varre-varre das beatas após a última missa. Ainda demoraria até a música começar, então aproveitaram para passear entre as barracas e os olhares ressentidos das moças do lugar.
Quando a banda finalmente começou a tocar, Maíra pode confirmar o que sentira na noite anterior. José Pedro era um excelente dançarino, a fazia querer que a música demorasse a parar e que pudesse estar em seus braços pra sempre. Na verdade, fazia Maíra querer muito mais coisas do que ela, um dia, poderia supor desejar.
Lá pelas tantas, quando o número de casais ao redor tinha se tornado grande, Maíra conseguiu convencer José Pedro a da uma volta perto do rio. A noite estava quente e eles não tinham ficado sozinhos em nenhum momento desde então, e, com mais algumas desculpas capengas, não foi difícil fazer com que o rapaz parasse de pensar no que o povo ia falar se os vissem sumindo de repente.
A lua cheia, refletida nas águas calmas do rio, era uma bola disforme de brilho e luz, dando um toque de magia ao local. Maíra decidira passar por cima dos bons modos do rapaz - e da boa fama que tinha – para satisfazer seus desejos. Mal chegaram à margem, tão sua conhecida, para enlaçar José Pedro pelo pescoço e puxar os lábios dele contra os seus.
José Pedro foi pego de surpresa, mas era rapaz novo cheio de fogo adormecido nas veias. Com a mesma maestria com que soube conduzir a moça durante a dança, apertou Maíra contra seu corpo, roçando, pressionando, gemendo.
Num momento estavam abraçados, em pé na margem do rio, alguns beijos depois e Maíra e José Pedro somente seriam encontrados por alguém que tentasse muito procurá-los. Misturados aos sons da floresta acharam a privacidade que queriam numa pequena parte da encosta, rio acima, que por seu desenho parecia mais uma pequena praia de água doce, escondida dos olhos de quem passasse pela trilha.
Tirando alguns poucos peixes e uma ou outra ave noturna, ninguém os viu, nem os procurou. Envolvidos pelo encantamento que os uniu desde o momento em que se viram pela primeira vez - ou até antes, vá se saber -, amaram-se dentro das águas do rio,  assistidos pelo luar.

Quando o céu começou a tornar-se mais claro, José Pedro pareceu se dar conta do tempo que havia passado e das coisas que fizeram. Meio avexado, meio contente, ajudou Maíra a se compor e atravessou com ela o caminho pelos fundos da vila, até alcançarem a casa dela. Mais uns dois beijos depois e carregando as sandálias na mão, a garota entrou em casa, silenciosamente, para que seu pai, mais do que ninguém pudesse desconfiar do que acontecera.
Na noite seguinte, José Pedro surpreendeu Maíra – que passara o dia inteiro se remoendo de dúvidas e ansiedade -, indo até sua casa, apresentando-se ao seu pai e levando-a para passear. Assistiram a uma apresentação de repentistas, tomaram sucos em uma das barracas e desfilaram de mãos dadas para alegria das fofoqueiras locais que andavam doidas para ter do que falar.
A lua cheia estava alta no céu quando voltaram à margem da noite anterior com a mesma vontade e desejo da primeira vez. Deitaram-se sobre a relva da beira do rio, depois nadaram juntos, nus, brincando como só os enamorados conseguem fazer.
À medida que as noites foram passando e a mesma rotina foi sendo cumprida, Maíra enchia-se de certeza de que encontra o verdadeiro amor. José Pedro, sempre galante, dizia-lhe coisas bonitas fazendo-a crer num futuro a dois, mesmo não lhe prometendo nada em nenhum momento.
Já era perto do meio-dia quando Maíra acordou lânguida e feliz. Abriu as janelas do quarto, se arrumou, tomou o café que o pai deixara preparado antes de sair para o trabalho, e saiu com a mesma expressão de felicidade incontida que a acompanhava na última semana, desde que conhecera José Pedro.
Foi até a loja de tecidos, atrás de uma renda nova para um vestido, e percebeu que havia muito burburinho no seu rastro. Normalmente ela não reparava nos buchichos alheios, mas daquela vez algo parecia diferente. Notou que as moças que passavam por ela cochichavam umas com as outras, com expressões contentes e maliciosas. Contentes e maliciosas demais para o gosto de Maíra.
Tentou ignorar os olhares em sua direção quando voltava pra casa, decidida a não se deixar perturbar pela maledicência dos outros. Não tinha nada para se envergonhar, e fora seus encontros com José Pedro na beira do rio – que julgava ser apenas algo temporário enquanto não assumiam o namoro, ou quem sabe, já um noivado -, nada a esconder.
Mas isso foi o suficiente para fazer a incerteza se alojar dentro de Maíra, crescendo com o passar do tempo e tomando forma de desespero quando a hora em que normalmente o rapaz chegava em sua casa para passearem, veio e se foi.
_ Há de ter acontecido alguma coisa, milha filha. Dizem que a velha Iracema anda nas últimas, o rapaz deve de ter tido que ficar com a avó.
Repetindo as palavras do pai para si como uma lenga-lenga, Maíra tentou controlar o nervosismo. No dia seguinte José Pedro daria notícias, tudo ficaria explicado e suas vidas seguiriam como ela, em sua criatividade juvenil, tinha imaginado. Porém, quando o sol novamente nasceu e ficou a pino, nada havia mudado. O rapaz não aparecera nem mandara recado. Sentindo a agonia tomar forma, Maíra decidiu procurar, ela mesma, saber o que estava acontecendo.
Indo direto até o pequeno armazém, Maíra interrompeu a venda que Seu Tonho fazia, chegando apressada e perguntando:
_ Onde está José Pedro?
_ Como assim, menina? – Com um olhar que misturava confusão e um tanto de desconforto por ter sido obrigado a parar uma venda, Seu Tonho entregou a mercadoria ao freguês que olhava a tudo com impaciência, e recebeu o pagamento, antes de continuar. - Onde ele havera de estar? Na casa dele, ora.
_ Ele está cuidando da velha Iracema? Aconteceu algo com ela? – perguntou, suspirando de alívio.
_ Que eu saiba, dona Iracema tem passado muito bem. Porque Zé Pedro teria ficado com a avó?
_ Não estou entendendo, seu Tonho. O senhor não disse que ele estava em casa?
_ Sim, menina. Na casa dele, na cidade grande. José Pedro voltou ontem, logo de manhãzinha, aproveitando um barco que partiu praquelas bandas.
Como uma alma penada, Maíra voltou para casa, onde foi para cama tentando acreditar que nada daquilo estava acontecendo. Revirou sua cabeça, remexeu nas lembranças, procurando algum indício, alguma fala em que José Pedro desse uma pista que ia embora, mas não encontrou nenhuma. Era verdade que o rapaz tentara conversar com ela na última noite e que ela não deixara, praticamente atacando-o mal chegaram ao rio, mas isso ela não queria lembrar.
O pai de Maíra estranhou quando, ao chegar em casa no final do dia, encontrou-a às escuras e no silêncio. Procurou pela filha e encontrou-a prostrada em sua cama, os olhos vermelhos e inchados, e logo entendeu o que acontecera. As fofocas na cidade corriam como vento, e a partida do neto da velha Iracema logo chegou aos seus ouvidos. Era uma pena, José Pedro parecia ser um bom rapaz e Maíra gostava muito dele. Gostava demais, pelo que estava vendo.
Sem saber direito como agir com a filha, aliás, como acontecia desde que sua mulher os abandonara, o pai de Maíra apenas a deixou em paz para que curasse suas feridas sozinha, assim como ele fizera.
Com o passar dos dias, a prostração de Maíra deu lugar à tristeza, depois ao desespero e por fim à revolta. Como ele pudera fazer isso com ela? Decidida a não dar mais motivo para falarem dela, como tinha certeza de que estavam fazendo desde que José Pedro partira, resolveu a voltar à praça naquela noite, onde continuava a ter festejos para os santos da época.
Fingindo ares de pouco se importar com o ocorrido, Maíra se esforçou ao máximo para se misturar com as moças do lugar. Fazendo vista grossa para as insinuações e provocações, chegou mesmo a rir e brincar, sentindo-se vingada a cada mentira que se via obrigada a contar.
Aos poucos, outros acontecidos foram virando motivo para as fofocas da cidade, e Maíra já havia decidido esquecer o que se passara, quando a vida pregou-lhe uma peça. A lua já tinha minguado, sumido e tornado a crescer, quando Maíra deu por falta de suas regras. Ela não era tola e havia aprendido na escola, alguns anos antes, o que isso normalmente significava.
Desesperou-se por um momento, pensando em tudo que lhe havia acontecido desde que ouvira falar de José Pedro, o “neto do boto”. O neto do boto! Como fora burra ao não acreditar nas histórias de sua avó. Não diziam que toda lenda, toda fantasia, se baseia na verdade? Então, era isso. José Pedro não era só o neto do boto, era ele mesmo um boto. Por isso ficara tão encantada com ele, por isso ele sumira depois de algum tempo.
Remoeu por alguns dias suas dúvidas e certezas, preconceitos e lembranças atrás do que apoiasse sua descoberta. Sua mente de garota do século XXI teimava em achar um absurdo, mas sua alma do interior, criada na beira do rio, se agarrava a lendas que mal recordava para solucionar seu problema.
O sol mal nascera quando Maíra saiu de casa, logo após o pai, e seguiu pelo caminho por onde diziam que se chegaria até a casa da velha Iracema. Se alguém por ali podia lhe dar alguma resposta era ela. Mal havia pensado que saíra da trilha e se perdera quando avistou o casebre humilde, com paredes de pau-a-pique sob folhas de amianto, tudo parecendo tão velho quanto à própria dona.
Ansiando por respostas, bateu à porta impaciente e, tão logo foi convidada a entrar pela senhora, foi logo despejando suas dúvidas.
_ A senhora precisa me dizer como eu faço para encontrar o José Pedro.
_ Então, você é a menina por quem meu neto estava enrabichado. Eu posso até lhe dar o endereço dele na cidade, mas nessas horas ele já nem deve de estar mais por lá. Ia começar os estudos na capital, sabia?
_ Mas eu preciso falar com ele. Não tem telefone?
_ Nunca usei, menina. Meus parentes sempre me mandam notícias por meio de cartas, e eu prefiro assim.
Tomada por um pânico que a agitava e mexia com seu bom-senso, resolveu ir direto ao assunto.
_ Dona Iracema, por favor, eu preciso que a senhora confirme: seu neto é um boto, não é?
_ Um boto? De onde você tirou essa idéia? E o que a menina sabe sobre botos, afinal?
_ Ora... O mesmo que todos – Maíra argumentou, decidida. – Eles viram moços bonitos durante a lua cheia, quando atraem garotas durante as festas dos santos. Depois eles as seduzem nas margens dos rios e vão embora, rio abaixo, deixando filhos sem pai por onde estiveram!
O rosto enrugado da velha Iracema se contorceu num sorriso debochado, ao ouvir a resposta de Maíra. Puxou o fumo do cigarro de palha que trazia no canto da boca, deixando o silêncio se alargar o quanto pôde, antes de continuar.
_ E a menina está dizendo que meu neto Zé Pedro é um boto...
_ Sim! Se fosse com outra, eu ia apostar que era mentira, mas...
_ Mas? 
_ Que outra explicação pode haver? Ele apareceu do nada e foi embora do nada, exatamente junto com a lua cheia, vivia com aquelas roupas bonitas, formais; aquele chapéu que não gostava de tirar... E teve, bem, e teve o rio – mesmo sentindo o rosto corar, continuou. - Ele se deitou comigo no rio, e agora... E agora eu estou esperando uma criança.
_ E você afirma que meu neto seduziu vosmecê, a levou pro rio e lhe fez um filho...
Ponderando as palavras da velha Iracema, Maíra sentiu um suor frio percorrer seu corpo e a ânsia que a acompanhava esses dias ganhou mais força. Correu para os degraus da soleira e lá mesmo esvaiu o pouco que havia conseguido comer no café. Esperou os espasmos passarem e limpou a boca com as costas da mão, antes de se virar e encarar novamente a velha.
_ Eu não estou mentindo.
_ Sobre se deitar com meu neto, acredito que não. A menina é vistosa, tem olhar de sereia... Deve de haver uma fileira de moços atrás d’ocê, tentando arranjar uns minutinhos numa margem qualquer dessas por aí, rio acima.
_ Eu nunca havia me deitado com ninguém!
_ Isso é o que a menina diz. Mas agora, todas as outras vão jurar por Nosso Senhor, que a viram se achegar a um ou outro. É capaz mesmo, de encontrar um deles pra confirmar.
_ Mentira!
_ Ah, menina, o que é mentira e o que é verdade pra essa gente do povo? Nesse pedacinho esquecido de terra, entre o rio e a mata?
Maíra já tinha pensado em tudo aquilo e no desgosto que causaria em seu pai, quando todos ficassem sabendo. Engoliu o choro que teimava em aparecer nas horas mais impróprias e levantou-se, pronta para ir embora e, talvez, seguir os passos de sua mãe.
_ Se a senhora não quer me ajudar, tudo bem. Eu... eu dou meu jeito. Muito agradecida.
_ E essa criança? E o meu neto, Zé Pedro?
_ Seu neto não se importou comigo. Conseguiu o que quis, com aquela cara de santo, e eu achando que decidia minha vida. Quando deu na veneta, pegou um barco e nem se despediu. Ele não tem mais espaço no meu coração. Quanto a essa criança... Eu vou ver o que vou fazer...

Ela podia estar andando a esmo, a cabeça repleta de pensamentos que não se encaixavam, mas seus pés sabiam bem o caminho a percorrer e quando Maíra percebeu já estava em seu lugar preferido no rio, que agora lhe trazia tanta dor no coração. Sentou-se na margem, desejando voltar no tempo, ansiando por nunca ter posto os olhos no neto da velha Iracema e querendo mais que tudo que José Pedro realmente não ocupasse seu coração. Deixou as lágrimas lavarem sua alma, depois voltou para casa, onde esperou pelo pai e contou que havia decidido morar com a avó, na capital.
No casebre de pau-a-pique, dona Iracema soltou um longo suspiro ao sentar sobre o colchão de palha de sua cama e apanhar o porta-retrato antigo, na mesinha de cabeceira. Olhando para uma Iracema bem moça, ainda cabocla formosa, de braços dados com o rapaz que roubou seu coração, um sorriso saudoso surgiu na face enrugada. Do outro lado do vidro já meio embaçado pelo tempo, José Pedro dava seu sorriso discreto, em resposta.

2 comentários:

Lívia Cavalheiro disse...

Uia! Cumassim?! kkkkkkkkkk
E não é que era o boto mesmo?
Adorei, Pri! Como eu disse, estava com saudade dos seus escritos! Me deliciei, matando a saudade e desejosa de mais, é claro.

Beijosssssssss.

Grazzy disse...

oowwwnnn, que lindo!!!!
Adorei!
Espetacular Pri *-*
parabéns!

Demorei pra encontrar o endereço de novo mas achei, tenho que guardar ele , depois da formatação perdi os favoritos. *-*

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