sábado, 9 de março de 2013

Sob a luz da Lua



A lua cheia, refletida no lago, evocou muitas lembranças em Bryanna. Houvera uma noite em que mergulhara sob a luz do luar com outras meninas da aldeia. Ali sentira a magia pela primeira vez. Nunca imaginaria o que aconteceria por causa disso...


O olhar de maldade que Yrma lhe lançou ao fazer suas acusações em frente ao Tribunal Inquisitorial nunca sairia de sua memória. Elas sempre foram amigas e trocavam confidências. E pensara que sua predição sobre o destino de Yrma traria somente alegrias...

Não tivera coragem de olhar para sua mãe, ao ser levada pelos inquisidores. Os gritos súplices já foram o suficiente para abalar seu coração. Aos poucos o medo foi sendo substituído pela raiva ao perceber o que estavam fazendo com ela. Durante o período que antecedeu a lua cheia, prepararam-lhe com todos os conhecimentos necessários para a realização do ritual. O jejum, as beberagens e as ervas, que agora queimavam ao seu lado provocando uma fumaça branca e doce que enevoava sua mente, só indicavam que, entre seus algozes, alguns conheciam as Artes. E, no entanto, era ela quem estava aprisionada por causa de uma simples visão.

Ao longe, o sino da paróquia soou doze vezes. Na beira do lago, Bryanna sentiu a magia começar a fluir em suas veias. Involuntariamente fixou mais uma vez os olhos na grande bola branca refletida na água. A imagem da lua oscilou e foi sendo substituída por outras, que iam e vinham num turbilhão.

A aldeia queimava sob a luz do amanhecer. Pessoas corriam em pânico, sem rumo, sem esperança. O horror estampado no rosto de seu pai, o corpo inerte de sua mãe em meio aos escombros do que um dia fora seu lar. O medo e a dor em todo lugar...

Banhada em suor, Bryanna se viu novamente na beira do lago, observando o reflexo da lua. Levou alguns segundos para entender o que o inquisidor lhe ordenava. Estava exausta. E terrificada. Só havia duas opções e nenhuma delas lhe era totalmente agradável. Se contasse o que vira, seria condenada à fogueira, porém poderia avisar a todos do perigo que a aldeia corria. Se ficasse calada, voltaria ao lar, mas não poderia impedir os acontecimentos que vislumbrara.

A brisa fria tocou sua pele e Bryanna percebeu que a magia se fora. Olhou para o rosto sofrido, banhado em lágrimas, de sua mãe, que permanecia sendo amparada por seu pai. Ele ajudaria sua mãe a suportar sua ausência. Bryanna não conseguiria suportar a culpa por tanto sofrimento. No final, não era uma decisão tão difícil assim a ser tomada. A aldeia valia mais que sua vida.

Após um mudo pedido de desculpas para seus pais, Bryanna contou tudo que vira no reflexo da lua. Não deixara de lado nenhum detalhe. Seu corpo foi amarrado ao mastro fincado no meio da praça. Bryanna fechou os olhos e trincou os dentes à espera do fogo que iria queimar sua carne e tirar-lhe a vida. Contudo, a brisa se transformou em vento e este levou as chamas para longe. Ao ouvir os gritos, Bryanna enfim abriu os olhos. O que viu a chocou mais que as visões da magia. O fogo ardia sobre as choupanas da aldeia, as pessoas corriam desabaladas. Sua visão se tornara real.

2 comentários:

Sônia disse...

Uau, Pri! Muuuito bom! Triste, mas muito bom!

Lis Santos disse...

ÔLOKO MOLHER

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